Aula do Laymert (02/03/11)


Foto: Anotações de Laymert sobre Du mode d’existence des objets techniques.

:::::::::: APRESENTAÇÃO :.
Em comum acordo com o Prof. Laymert Garcia dos Santos, publicarei neste blog anotações feitas durante as aulas que ele dará neste semestre dentro do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH-UNICAMP.

O interesse em publicar isso aqui é duplo. Por um lado, a disciplina se concentrará no estudo de conceitos simondonianos como “individuação” e “tecnicidade”, com os quais Laymert trabalha há décadas e sobre os quais, portanto, ele tem muito a dizer. Por outro lado, esta será a última disciplina que ele ministrará nesta pós-graduação antes de se retirar para licenças e aposentadoria, de forma que se trata de um semestre liminar em sua trajetória acadêmica. O nome oficial da disciplina é: SO141 – Tópicos Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II. A primeira aula ocorreu no dia 2 de março de 2011, na sala 13-B do prédio da pós-graduação do IFCH.

As anotações aqui publicadas são livres e editadas. A ordem das idéias não segue necessariamente a ordem de ocorrência na aula, antes privilegiando uma certa linearidade escrita. Erros de digitação ou de formatação serão o resultado da urgência deste registro, mas não deveriam comprometer a apreensão dos temas tratados.

:::::::::: ANOTAÇÕES :.
A disciplina se concentrará na obra de Gilbert Simondon. Mas será uma disciplina de Filosofia ou de Sociologia? Ora, é preciso ir além desta questão disciplinar.

O pensamento de Simondon é absolutamente necessário para a Sociologia contemporânea. A importância do pensamento de Simondon para as Ciências Humanas e Sociais contemporâneas só cresce.

Laymert leu Simondon pela primeira vez durante seu Doutorado e, desde então, nunca mais o abandonou. Para Laymert, Simondon ajuda a entender o mundo em que vivemos e também como vivemos nele. Muitos filósofos importantes leram Simondon (Laymert cita alguns nomes, dentre os quais só consigo anotar Deleuze e Lyotard).

Os sociólogos pensam que vivemos em uma sociedade de humanos. Simondon, no entanto, sabia que não vivemos numa sociedade de humanos, mas sim de humanos com máquinas. Para entender a sociedade contemporânea é preciso, portanto, pesquisar a relação humano-máquina (incluindo aí as relações humano-humano, humano-máquina, máquina-humano e máquina-máquina). A importância de pensar essa relação humano-máquina, para Simondon, reside no fato de que humanos e máquinas têm diferentes modos de existência.

O que isso implica no deslocamento de nossa maneira de pensar? Nietzsche já havia dito que Deus estava morto. Foucault, por sua vez, mostrou que o Homem (não o “humano”, mas o “humano humanista”) também já está morto. O problema é que esqueceram de enterrar o Homem, de forma que continuamos achando que estamos em um mundo que não existe mais. As Ciências Humanas, voltando-se para este Homem-já-morto-mas-ainda-não-enterrado, se mostra assim ultrapassada e desatualizada com relação às transformações trazidas pela virada cibernética.

No filme “Nosso século”, Artavazd Pelechian (1983-90) mostra que o último herói humano (o cosmonauta) já não é mais humano pois já é uma espécie de ciborgue. O humano “foi para o espaço”, em vários sentidos.

Como conceber então as Ciências Humanas após a morte do Homem? Seria preciso pensar em conjunto os modos de existência da máquina e do homem. A disciplina não se prenderá, portanto, aos moldes das Ciências Humanas, pois propõe pensar o deslocamento do pensamento pós virada cibernética.

Vamos trabalhar sobretudo com as duas obras principais de Simondon: Du mode d’existence des objets techniques e L’individuation à la lumière des notions de forme et d’individuation. São obras fundamentais, pois abordam a individuação no ser físico, no ser vivo e no ser humano, e pensam o modo de existência dos humanos e das máquinas a partir de uma noção inovadora de informação. O fato de que atualmente tudo é cibernetizado, digitalizado, destaca a centralidade contemporânea da noção de informação.

Simondon queria construir uma filosofia não autocrática das máquinas. O filósofo nota que temos uma relação utilitária-instrumental com as máquinas, segundo a qual elas devem estar à nossa disposição. Esta é uma relação marcada pela dominação, do tipo senhor-escravo, sendo a máquina ora senhor (quando algo dá errado e ela nos domina), ora escravo (quando tudo dá certo e nós dominamos ela). No entanto, Simondon mostra que encarar a máquina como escravo é o continuar a escravidão por outros meios. O suposto problema das máquinas “out of control” (muito comum nas análises sociológicas e filosóficas) acaba legitimando a idéia de que precisamos dominá-las. Simondon diz que nossa relação com elas pode ser diferente, e muito melhor. Para isso, é preciso construir uma filosofia não autocrática das máquinas através do estudo dos modos de existência das máquinas e dos humanos e de sua relação.

Isso influencia a todos nós cotidianamente. Nossa convivência cotidiana atual com computadores, por exemplo, faz com que, dependendo do computador que temos, possamos individuar mais ou menos. É preciso pensar esse modo de tornar-se do humano e da máquina. A ênfase não deve recair no indivíduo, mas sim na individuação dos humanos e das máquinas e na relação entre eles.

Donna Haraway constatou que hoje somos todos ciborgues. Ela disse (aqui Laymert parece fazer de Haraway um personagem conceitual para dramatizar o deslocamento do pensamento na virada cibernética): “Eu aprendi a ser descendente do macaco e agora a ciência me diz que sou um organismo cibernético”. A biologia, efetivamente, já é molecular… Haraway pergunta: “como é que eu fico? (No que se refere ao meu processo de individuação-subjetivação). Fui estudar primatologia, mas a primatologia já estava cibernetizada. Sou ciborque ou descendente de macaco? Pânico total, não sei mais quem eu sou. Voltar pra trás? Não quero ser deusa. Então o que será daqui pra frente? Como ocorre o discenso? Eu quero ser ciborque, mas de oposição (processo de individuação).”

Na chave processual da individuação, o problema não é o que o humano é (seu “ser”, sua “essência”), e sim o que ele se torna (seu “devir”, seu “vir-a-ser”). Trata-se de um pensamento político, mas que exige que se substitua as armas do velho humanismo. Um exemplo das implicações políticas desta questão é a maneira como o programa neoliberal processa o homo economicus, fazendo da vida um recurso a ser investido. Até nas relações afetivas é preciso que haja retorno. Osvaldo J. López-Ruiz demonstrou isso numa pesquisa sobre o ethos dos executivos contemporâneos, quando, por exemplo, o desejo de aprender a tomar vinho vem já ligado à possibilidade de convidar o chefe para um jantar e ser promovido por demonstrar conhecimentos enológicos. Tudo é investimento e, portanto, envolve uma programação (cálculo). Então surge a questão: quanto é que você individua efetivamente com seus próprios potenciais, e não com aqueles na verdade valorizados pelo sistema? Onde está a individuação e onde está a programação? Como saber se você está individuando ou apenas fazendo o investimento que o sistema diz que você precisa fazer para não ser um loser? São todas implicações políticas.

Em que medida o grau de controle no capitalismno contemporâneo abre margens de individuação humano-máquina? Em que medida há o controle e em que medida há individuação? Em que medida o controle transforma a própria maneira como concebemos a psiquê humana? A psicanálise (as psis) está em decadência pois as “neuros” (cybers) dizem que podem resolver todos os problemas neuroquimicamente. A psicanálise enquadrava a economia libidinal do homem ocidental em determinados parâmetros. O que fundamenta o pensamento freudiano já não fundamenta mais a compreensão contemporânea da subjetividade. Novas práticas reprodutivas ligadas a novas formas de sexualidade e de agrupamento familiar tornaram obsoleta a psicanálise. Em meados do século XX a reprodução humana ainda não lidava com essas questões, e as transformações só aceleram. No entanto, se os processos de individuação se transformaram drasticamente, o pensamento sobre a individuação parece não ter acompanhado.

O que isso importa para as Ciências Humanas? Não interessa fazer a crítica das Ciências Humanas, bater em cachorro morto. O que interessa é o que está por vir. O interesse não está mais em explicações (sobre o que já aconteceu), mas sim em implicações (o que está por vir).

Hamlet foi o primeiro a dizer, ainda no século XVI: “o tempo está fora do prumo”. Nós continuamos nesta questão. Ninguém tem tempo, há um abismo, uma tensão, entre o tempo social e o tempo humano. Lidar bem com isso é raro. Vinte anos atrás Heiner Müller escreveu Hamlet-Máquina, misturando a questão de Hamlet com a questão das máquinas. Segundo Müller, a poesia interessa pois vai mais depressa que a teoria. Isso também interessa ao Laymert. Se isso é obscuro, é preciso notar que Müller estava escrevendo no escuro. E se Shakespeare antecipou uma questão central da modernidade com Hamlet, então não estaria Müller antecipando uma nova questão? O que vai acontecer? Isso interessa o Laymert.

Como pôde Simondon pensar seriamente tudo isso através da noção de informação? Simondon não é uma leitura fácil, é complexo. Mas vale a pena o esforço para entender o que é individuação. Até mesmo para pensar nossa própria individuação.

Laymert desencorajou qualquer tentativa de aplicar diretamente o conteúdo da disciplina às teses e dissertações dos alunos. Não deve haver relação instrumental entre o curso e os trabalhos individuais. Simondon propõe uma nova maneira de pensar e encarar o mundo e seus processos. Trata-se de um pensamento rigoroso e preciso, cuja compreensão exigirá algum esforço por parte dos alunos.

Será preciso que os alunos leiam os textos para que realizem a operação de deslocamento da percepção e do olhar. Não basta que apenas o professor apresente os textos, pois então apenas ele estará entrando no movimento de individuação, e as aulas ficarão abstratas e chatas.

O modo do curso funcionar vai depender muito da performance da classe. Pode ser legal ou um saco. Um pressuposto básico será: ninguém fará uma utilização instrumental deste curso. Trata-se da individuação de cada um, o que exigirá tempo e empenho sem retorno garantido-previsível.

Após alguma discussão, decidimos começar as leituras pela introdução e pelo primeiro capítulo de Du mode d’existence des objets techniques. A introdução e parte deste primeiro capítulo estão disponíveis em português aqui. Segundo Laymert, quem não for pular o carnaval pode ler, como leitura complementar, Zen e a arte da manutenção de motocicletas, de Robert Pirsig. Este livro trata da especificidade da relação homem-máquina no caso das motocicletas, envolvendo, por exemplo, a relação com o asfalto, o vento etc.

Outros textos mencionados por Laymert como bibliografia complementar são (referências completas no programa ainda a ser disponibilizado aos alunos): Deux leçons sur l’animal et l’homme (G.Simondon 2004 [1967]); Simondon – individu et collectivité (M.Combes 1999); “Gilbert Simondon, L’individu et sa génèse physico-biologique” (G.Deleuze 2002 [1966]); “L’individuation est-elle une instauration? Autour des pensées de Simondon et de Souriau” (Haumont 2002); Les différents modes d’existence (Souriau 2009 [1943]); Hamlet-machine (Müller 1979 [1977]); Accélération – une critique sociale du temps (H.Rosa 2010); Le sens de l’évolution technique (X.Guchet 2005); O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais (P.Sibila 2002); La domestication de l’être (P.Sloterdijk 2005); e Nietzsche et la biologie (B.Stiegler 2001).

Redator: Pedro P. Ferreira

:::::::::: OUTRAS AULAS :.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Aula do Laymert (02/03/11)

  1. Fabiano Fazion

    Excelente iniciativa ! O acesso às reflexões do Prof. Laymert será de grande valor para aqueles que não podem acompanhar suas aulas pessoalmente. Obrigado, continue as postagens que estaremos acompanhando.

  2. Muito bom ter essas transcrições e poder aproveitar à distância desse debate.
    abraços,

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