Aula do Laymert (16/03/2011)


Foto: Laymert durante a aula. Na lousa, todas as inscrições feitas pelo professor durante aula.

:::::::::: OBSERVAÇÕES :.
Este é o resultado de minhas anotações durante a segunda aula do professor Laymert Garcia dos Santos na disciplina de pós-graduação SO141 – Tópicos Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II, ocorrida no dia 16 de maio de 2011, na sala 13-B do prédio da pós-graduação do IFCH/UNICAMP.

Nesta segunda aula houve bastante participação dos alunos. Como eu ainda não havia elaborado um formato padrão para registrar essa participação, identifiquei pelo primeiro nome apenas os alunos cujos nomes eu sabia. Os(as) demais foram identificados como “Aluno(a)”. Devido às limitações do registro in loco (muita coisa passa…) e às exigências da linguagem escrita (falar é muito diferente de escrever), muitas intervenções foram editadas, resumidas ou elididas. Espero não ter deixado passar muitos erros…

:::::::::: REGISTRO :.
Havíamos combinado ler a Introdução e o Primeiro Capítulo (“Gênese do objeto técnico: o processo de concretização”) de Du mode d’existence des objets techniques (MEOT), de Gilbert Simondon. Laymert diz que queria saber das pessoas a recepção da leitura. Ele pergunta sobre dificuldades e pontos importantes. Pergunta como a visão apresentada na introdução sobre a filosofia da tecnologia do Simondon apareceu para a classe. Como a leitura aconteceu? Há dificuldades?

Alguns segundos de silêncio na classe.

Rafael: É mais fluido ler a introdução de MEOT do que aquela de L’individuation a la lumiere des notions de forme et d’information, pela concretude dos exemplos.

Laymert: Então, se é tranquilo, a filosofia da tecnologia dele é um pensamento sem surpresa pra vocês?

Aluno: A relação homem-máquina é apresentada por Simondon de um ponto de vista não apocalíptico. A tecnologia não é apresentada como simples ferramenta. Do ponto de vista das artes isso traz implicações, como no caso de colocar a tecnologia a serviço de uma poética. Eu não gostei do exemplo do maestro, por causa da hierarquia. Achei mais legal pensar a tecnologia no sentido relacional de uma troca do que numa relação vertical.

Laymert: Isso é um ponto forte, pois Simondon quebra a assimetria. O importante é a relação. O pensamento de Simondon é relacional, e portanto processual (apesar de falar em “essência”), e portanto desreifica o sujeito humano e o objeto tecnológico. E é importante que o primeiro a falar venha das artes [o aluno com quem Laymert dialoga faz pós-graduação em música], pois o pensamento de Simondon está relacionando arte (estética), tecnologia e cultura. Podemos pensar como essa relação aparece no texto. Por que a estética é importante para pensar o que está faltando na tecnologia? E por que isso é importante?

Pois ocorre dominação. É um pensamento político. O ponto básico da filosofia do Simondon é o fato de não ser uma filosofia autocrática da técnica. Isso supõe que o humano pense a sua relação com a máquina fora dos termos da dominação, o que já é algo bastante forte. Assim, já de cara, ele vai estabelecer que o modo como nos relacionamos (e o modo como pensamos essa relação) com a técnica é o de uma relação de servidão. O oposto de uma relação de servidão seria uma que pensasse a especificidade do humano com relação à especificidade da máquina. Ou seja, todo o pensamento dele gira em torno do problema do fantasma da dominação homem-máquina (um dominando o outro). Golem, Frankenstein, Robocop, toda essa linhagem de pensamento segundo a qual, ou somos dominados, ou devemos dominar as máquinas. Esse é o nosso senso comum, Simondon não está exagerando.

Rafael: Se o medo-fantasma do robô é infundado, se é uma projeção da sociedade sobre as técnicas, o inverso também não ocorre? Atribuir aos humanos características de máquinas? Mas quando o humano tenta imitar a máquina ele está fadado ao fracasso.

Pedro: Vale notar que essa relação dualista homem-máquina na qual há necessariamente um dominando o outro é, para Simondon, historicamente circunscrita ao surgimento do indivíduo técnico, ligado à tecnologia termodinâmica do século XIX. É o indivíduo técnico que ameaça o ser humano, que aparentemente o torna supérfluo. Antes disso, no século XVIII, Simondon encontra ainda uma relação homem-instrumento, característica do elemento técnico, quando o humano ainda é parte integrante do indivíduo técnico (ou seja, quando este ainda não está concretizado). A possibilidade de uma filosofia não autocrática das máquinas surge apenas com os conjuntos técnicos, quando o humano já não é mais nem parte integrante do indivíduo técnico e nem um indivíduo humano que possa ser substituído por um indivíduo técnico, mas sim o coordenador humano de um conjunto técnico. O papel central da filosofia nesse processo evidencia um certo “Iluminismo” de Simondon. Assim como os filósofos iluministas fizeram a crítica da escravidão humana, Simondon faz a crítica da escravidão técnica.

Rafael: Mas eu associo Iluminismo à racionalidade, e o Simondon valoriza a indeterminação. Simondon deseja que o humano aprenda a linguagem das máquinas, e não o que de fato ocorre, que é a máquina aprender a linguagem do humano.

Laymert: O problema do maestro não é ele conhecer a linguagem dos instrumentos (apesar disso ser geralmente esperado). A grande diferença entre o maestro (entendido aqui como as figuras do mecanólogo, do sociólogo e do psicólogo evocadas por Simondon) e qualquer outro membro da orquestra é que, em lugar de tocar um instrumento, ele está nos entres, em meio aos que tocam, coordenando esse movimento pelo porvir, pela tendência. Ele “puxa” a música.

Aluno: Os maestros barrocos coordenam mas são horizontais. O Simondon parece ter um maestro barroco em mente.

Laymert: Acho que sim. Ele é uma pessoa que se deixa atravessar por todos os músicos. Ele tem que se responsabilizar pelo diálogo. Ele está captando o que cada um está fazendo. Ele tem que estar, como o mecanólogo, ouvindo-vendo essa relação entre humanos e máquinas em todas as suas variantes humano-humano, humano-máquina e máquina-máquina. Isso pode parecer banal, mas o que não me parece de forma alguma banal é tirar o automatismo das nossas cabeças, condição para uma filosofia não autocrática das máquinas. Pois podemos entender isso aqui-agora, mas daqui a cinco minutos ter uma relação autocrática com o celular ou o automóvel. Uma relação utilitária, como o antigo usava o escravo. Depois de usada, a máquina deve sair de cena.

E como ser um mecanólogo? Não basta ter inteligência, é preciso ter sensibilidade. É preciso ter um ouvido para ouvir essa diferença capaz de emitir alguma coisa, para perceber o que está do lado de lá e o que está acontecendo. Essa relação não é a que usualmente temos com as máquinas. Esperamos que elas respondam às nossas expectativas. Nunca pensamos que devemos corresponder às expectativas delas. O importante é esse pressuposto de uma projeção humana sobre as máquinas (nós as dominamos) e, sua contrapartida, o temor de que haja essa projeção contrária (elas nos dominam). É uma projeção nossa. Simondon quer tirar os fantasmas da jogada. Eliminar o modo instrumental de nossa relação com as máquinas. Algo que lembra, em certos aspectos, a crítica de Marcuse àquilo que ele chamou de “homem unidimensional” e sua relação instrumental com as máquinas. Simondon apresenta o que precisamos fazer para pensar outro tipo de relação com as máquinas. Parece fácil, mas se fosse não continuaríamos no automatismo. O problema do automatismo “mítico” das máquinas depende da superação de um outro automatismo, que é o da nossa relação projetiva com as máquinas.

Se trata de pensar racionalmente nossa relação com as máquinas. O sentido do termo “mítico” para Simondon é Iluminista, negativo. É preciso pensar a ontologia da técnica, o modo de ser do objeto técnico, mistura de humano e natureza, humano e não-humano. Temos que entender que os objetos técnicos também têm uma evolução, e que ela é diferente da nossa, para que possamos nos entender com eles. E precisamos nos entender com eles. Eu, por exemplo, não sei e nem quero saber como consertar o meu carro. Mas isso é ruim, pois estimula o automatismo. Esse era o conhecimento que a criança precisa saber.

Aluna: Essa perda de conhecimento sobre as máquinas não pode ser atribuída aos imperativos econômicos e, portanto, extra-técnicos, de sua evolução? Somos estimulados a ter uma relação utilitária com as máquinas e elas se tornam meros objetos ou mitos-robôs. Simondon diz que a cultura “perdeu” essa consciência da técnica. Mas ela alguma vez existiu?

Laymert: Lendo o texto todo, veremos que, quando ele for para trás, no começo estava tudo junto. A cultura não estava separada da técnica no mundo mágico. É isso que vai fazê-lo questionar se a evolução é um avanço. Nas sociedades primitivas-mágicas, onde o primeiro tecnólogo é o xamã, arte, técnica e cultura não estão separadas. Nós não estranhamos que, para podermos fruir o objeto estético, precisemos saber do que se trata, conhecer. Se formos a uma exposição sem sermos cultivados, não entenderemos nada e diremos: “isso aqui até meu filho faz”; ou “qualquer criança faz isso”. Essa pessoa não tem julgamento estético nenhum, não sabe o que está em jogo quando, por exemplo, Miró faz aquilo que parece um desenhinho de criança. Mas o que é tornar-se criança depois de toda a história da arte? O que é reconquistar a espontaneidade-liberdade da criança com um pincel, sendo adulto e conhecendo toda a história da pintura? É fantástico que Miró tenha conseguido chegar nesse ponto de novo.

No objeto estético, damos de barato que é preciso conhecer para fruir. Mas quando se trata do objeto técnico, agimos como se só precisássemos usar o objeto, como se não precisássemos conhecê-lo. Essa dimensão oculta (não pensada) do objeto técnico é a sua ontologia, o seu ser, o seu movimento interno, a direção do seu devir. Ele só pode atender às necessidades humanas (exteriorres a ele) se elas corresponderem aos seus próprios movimentos internos. Só assim ele responde e atende. É preciso atender às respostas do objeto técnico às nossas demandas. Essas respostas são o resultado de uma história, de uma evolução. Há uma relação entre a demanda humana externa e os movimentos internos do objeto técnico. Eu não posso pedir para um telefone dos anos 1950 que faça o que eu posso pedir para um iPhone. Ele não vai me responder. Isso não corresponde ao seu funcionamento interno. O iPhone é muito mais do que um telefone. Ele é um objeto técnico multifuncional do tipo que Bruce Sterling chamou de Gizmo, que, entre muitas outras coisas, serve como telefone.

Léo: Esse agregamento de funções não corresponde necessariamente a uma evolução do telefone. A satisfação de uma demanda econômica não corresponde a uma evolução técnica.

Laymert: Mas nesse caso evoluiu ou não? O que aconteceu no caso do telefone não foi o mesmo que quando, por exemplo, se adorna um automóvel.

Léo: Mas e os automatismos que a fábrica incorpora no automóvel, como o câmbio automático? Não podemos confundir a evolução do objeto técnico com a evolução do aparelho.

Pedro: Seria útil lembrar aqui da última seção do primeiro capítulo, quando Simondon trata das origens absolutas de uma linhagem técnica. Ali, através do caso da passagem do diodo para o triodo etc., ele chega a uma distinção clara entre o objeto técnico que se concretiza (enquanto tendência) e os objetos técnicos concretos que manifestam etapas dessa concretização. No caso do exemplo citado, Simondon identifica a “condutância assimétrica” como o princípio funcional que orienta a evolução de um objeto técnico através de suas sucessivas manifestações mais ou menos concretizadas. Com isso, a comparação entre o telefone dos anos 1950 e o iPhone talvez possa revelar uma evolução do ponto de vista de alguns princípios funcionais, mas não daquele que dá nome ao “telefone”, i.e., a transmissão de som à distância.

Laymert: Mas “tele-fonia” é a mesma coisa hoje e nos anos 1970?

[Uma resposta negativa emana difusamente da classe.]

Diego: Sterling talvez ajude a pensar essa diferença, através de sua concepção de ciberespaço.

Aluno: Como se coloca a questão da evolução nos casos distintos do acréscimo de funcionalidades a um objeto e do aperfeiçoamento de funcionalidades já existentes nele?

Laymert: Ambos os casos se misturam, ocorrem ao mesmo tempo. Não se opõe aqui aperfeiçoamento e mutação de um ser. A mutação ocorre quando passamos de um aperfeiçoamento contínuo para um aperfeiçoamento descontínuo. A mutação é a evolução.

Aluno: O conhecimento do objeto técnico que o Simondon quer retomar é aquele que me permite consertar o meu carro ou é algo mais complexo, ligado à figura do maestro?

Laymert: Eu não veria essa oposição entre consertar o meu carro e a dimensão maior. Saber consertar meu carro implicaria em conhecer a sua mecânica, mas também ter a sensibilidade para saber o que eu tenho que fazer. No meu carro, quando eu escuto um barulhinho estranho, eu tento ignorar, aumento o som para não ouvi-lo, mesmo sabendo que mais para frente eu terei um problema ainda mais grave. Mas o que significa esse recalcamento do som que a máquina está fazendo, e portanto daquilo que ela está me dizendo? Eu não quero ouvi-la nunca, nem quando está funcionando (pois deve ser silenciosa) e nem quando estraga (pois finjo que o problema não existe). Eu nego a sua existência.

Rafael: Isso me lembra de quando eu trabalhava no setor de manutenção de uma fábrica e montei cronogramas de manutenção das máquinas. Como os cronogramas nunca eram usados, fui conversar com o técnico, que me disse: “eu escuto, e quando precisa eu ponho óleo”. O operador antigo não precisa das tabelas que os novos operadores precisam, pois conversava com as máquinas. Funcionários antigos usavam sua sensibilidade para realizar intervenções que hoje são definidas por máquinas.

Aluna: Se todos devem ser regentes, quem serão os músicos?

Laymert: Aquele que pensa “que socidade é essa hoje” é, em certa medida, maestro. Primeiro existe uma analítica da máquina, quando ela é pensada. Depois ela se concretiza, com sua evolução. Nesse processo, preciso ouvir a máquina tanto na medida em que ela concretiza a abstração, quanto na medida em que ela me diz coisas que não estavam previstas no esquema abstrato. Ela diz coisas que não estavam previstas no meu plano, os materiais e as leis da natureza colocam para mim obstáculos e dificuldades. O funcionamento da máquina é a cobinação entre aquele que a gente previu e aquele que está acontecendo.

Emerson: É na concretização que começam a aparecer os problemas. Coisas que não precisam ser pensadas racionalmente mas que passam pelo corpo.

Laymert: Primeiro a máquina é pensada. É primária. É função + função + função… É uma organização das expectativas que eu tenho com relação a cada parte dessa máquina, pensada separadamente. O problema aparece quando eu junto isso tudo. Um acúmulo de funções não é uma sinergia de funções. A máquina sugere modificações do plano para que este se concretize. É preciso escutá-la. É por isso que está além do cronograma do Rafael. O velho técnico dialoga com a máquina e não com um esquema abstrato.

Rafael: E, para o sistema, esse velho técnico deve ser demitido, pois não preencheu nenhuma planília.

Laymert: E no entanto, se já existe planília, então a margem de indeterminação não está mais aí. Ela migrou para os computadores, para os sistemas informacionais. A questão é: foi a planília que automatizou a produção ou foi a automatização que a tornou possível?

Rafael: Pensamos evolução técnica (do celular, por exemplo) como um aperfeiçoamento funcional, mas Simondon mostra que objetos antigos podem satisfazer melhor a certas funções do que os recentes. Ele permite questionarmos a idéia de uma orientação única da evolução.

Pedro: E no entanto ele propõe justamente um método para encontrarmos linhagens filogenéticas de objetos técnicos como quem traça a linhagem evolutiva de espécies biológicas. Estudar o objeto técnico enquanto vir-a-ser, enquanto processo evolutivo, implica em descobrir origens e traçar genealogias. No entanto, essas genealogias não podem ser traçadas de qualquer jeito, é preciso um método. Simondon vai atribuir à filosofia o papel de reunificar aquilo que foi separado na fase mágica. O papel reconciliador da Filosofia me incomoda um pouco por aparentemente “fechar” o sistema, sugerindo um certo conservadorismo.

Laymert: Discordo radicalmente dessa impressão. Há uma diferença importante entre a evolução contínua (adaptação) e a evolução descontínua (individuação). É preciso pensar na relação entre concretização e margem de indeterminação: o importante na concretização do objeto técnico é transformar uma tensão negativa, uma incompatibilidade, em resolução. Quando isso ocorre, há uma mutação. Algo que era incompatível (forças virtuais, potenciais), encontra uma solução positiva. É por aí que as máquinas avançam. É pela superação dos obstáculos que as máquinas evoluem, e isso é mutação. Há uma linha evolutiva, mas o sentido dessa evolução não é a adaptação darwiniana mas sim a invenção. O ato inventivo é fundamental para o ser técnico, pois este não existe na natureza, não existe sem aquele ato.

Thiago: Podemos dizer que há, em Simondon, uma evolução paralela humano-máquina?

Laymert: As máquinas concretizam potencias imantentes, elas se tornam cada vez mais aquilo para o qual elas tendem, que não é uma simples projeção daquilo que queremos que elas sejam, mas sim os potenciais que elas podem realizar, que nunca vão se esgotar. Elas evoluem conosco, mas nós não determinamos o futuro delas. Isso pode ser ilustrado com um exemplo contemporâneo. Usinas de energia nuclear são projetadas para resistir a terremotos de até 7 pontos na escala Richter. Ora, o terremoto que acaba de acontecer no Japão foi de 9 pontos. Termoreatores nucleares estão derretendo e a contaminação por radioatividade já ameça fugir do controle. Vemos que a natureza está respondendo, mas não do jeito esperado. Vai ser necessária uma revisão de toda a questão da segurança nuclear, pois todos só se protegiam até terremotos de 7 pontos. Na Califórnia, existem várias empresas de energia nuclear que ficam sobre a falha tectônica. Se eu fosse californiano eu ficaria preocupado.

Aluno: Estudos comprovam que o estilo de vida moderno provocou mudanças nos padrões neurais humanos que podem ser responsáveis por diversas doenças. O homem está sendo afetado pela máquina. O homem está virando ciborgue, como já disse Donna Haraway. A máquina está se individuando, concretizando, mas o homem está seguindo a individuação da máquina…

Laymert: Você diz: “a máquina está maquinando, mas nós estamos imitando a maquinação da máquina”. Ora, esse é um problema nosso, não das máquinas. Mais ainda, esse é “o” nosso problema. É por isso que precisamos de uma filosofia não-autocrática das máquinas. Não estamos pensando nas maquinações extra-técnicas dos humanos, que interagem com as maquinações técnicas das máquinas. Quem tem pensado sobre isso é o pessoal que pesquisa a questão da relação arte-tecnologia. Para um artista como Harun Farocki, por exemplo, a questão é a individuação da câmera e (junto com) a nossa. No caso dos xamãs ianomami, por exemplo, é toda uma tecnologia audiovisual que está em jogo. Eles podem ser chamados de simondonianos, pois querem explorar-experimentar o virtual enquanto tal, em lugar de sempre atualizar tudo aquilo do virtual a que eles tiverem acesso. Simondon permite pensar isso, essa diferença entre nós e eles. Ver o xamã como um puta tecnólogo que acessa coisas que a ciência nem desconfia que existem. O Davi Yanomami diz que o tubo para cheirar yakoana é o computador dele. Eu vou dizer que não? Só se eu for “unidimensional”. Daí vou achar que isso é inveja dele. Mas se eu perceber que todas as questões de download eu posso resolver aqui no peito, passo a concretizar de outro modo, e é isso que Simondon me permite pensar.

Emerson: Sobre um comentário anterior do Pedro, gostaria de mencionar um livro recente sobre a relação Simondon-Nietzsche. Mas também queria fazer um comentário sobre a maneira como as escolas técnicas atuais desvalorizam cada vez mais a sensibilidade, a dimensão estética da técnica. Simondon dizia que precisamos ter uma educação tecnológica, mas isso é cada vez mais entendido apenas como especialização.

Laymert: Simondon, na verdade, critica a especialização através da idéia de uma nova cultura.

Rafael: Quando Simondon diz “engenheiro”, ele parece não estar falando daquilo que hoje entendemos por engenheiro.

Laymert: Eu queria retomar a questão sobre neurociência, sobre se a máquina está realmente limitando o humano. Philip K. Dick achava que sim, e basta ver seu texto de não-ficção sobre a lógica dos andróides. Para Dick, o controle existe, mas devemos resistir. Haraway está dizendo algo parecido, pois quer ser ciborgue, mas de oposição. A questão da expansão dos limites neurológicos humanos é importantíssima, e envolve também inúmeras drogas comportamentais e de desempenho, como o Ritalin etc. [Laymert cita mais outros exemplos que eu não consigo anotar]. Mas existem maneiras de lidar com isso. Um caso interessante é o do ayahuasca, por exemplo. Gente do mundo inteiro vai ao Peru tomar ayahuasca. Além de todo o simbolismo tradicional envolvido com o ritual, existe nesse consumo uma possibilidade de expansão de atividades cerebrais e de obtenção de conhecimentos que não passam pelos mesmos circuitos da nossa tecnologia, os circuitos que nos programam. Seriam como programações alternativas, ampliações de capacidades cerebrais. Existem inúmeras possibilidades. A individuação ocidental é a da ciência autoritária.

Os problemas gerados pela tecnologia não são problemas da tecnologia, mas sim de nossa relação com ela. Não devemos nos opor às máquinas. Esse ressentimento com as máquinas é um ponto central, como prolegômeno à proposta de Simondon, pois mostra como ela não é trivial, não é fácil, pois é anti-automática para nós.

Thiago: Talvez pudéssemos pensar em outras velocidades tecnológicas. Talvez numa redução da velocidade de nossa própria tecnologia. Lembrando do livro Zen e a arte da manutenção de motocicletas, é importante não sermos alienados com relação às máquinas, mas chega um ponto em que parece impossível ficar a par da velocidade.

Laymert: Seria útil considerar o que Simondon diz sobre a oposição entre artificialização e concretização. Artificialização é a desconstrução de uma individuação para outros fins. É uma perversão. Isso é o caso da flor na estufa, quando, em lugar de naturalizar (como no caso da concretização das máquinas), você artificializa o organismo. É uma perversão para ganhar dinheiro. Condenar a técnica pela artificialização não é condenar a técnica, mas sim a artificialização.

Diego: Mas e o caso das sementes geneticamente modificadas? Não poderia o engenheiro (genético) ser considerado um maestro no sentido simondoniano?

Laymert: Mas esse engenheiro seria regente de que? Da semente? Ele abstraiu a semente! É preciso assumir que existe aqui uma confusão sobre se a semente geneticamente modificada é ainda uma “semente como antes” ou se ela é uma coisa “totalmente nova”, que antes não existia. É semente ou é propriedade? Na hora de usar é preciso pagar por aquilo que ela tem de diferente de todas as outras sementes, algo que é considerado propriedade particular. Mas na hora de vender é preciso convencer de que se trata de uma semente como qualquer outra, que a operação é a mesma de sempre. A sociedade precisa decidir se quer eliminar o que se entende por semente e aceitar a engenharia genética, ou não, mas é preciso decidir, e não fingir que é semente como sempre. O caso da estufa apresentado por Simondon é central aqui: a individuação da planta foi interrompida e tornada dependente do humano. O problema desse processo de artificialização de um ser natural é que a semente geneticamente modificada ameaça a existência da semente natural, algo que não ocorre no processo de concretização dos objetos técnicos.

Aluno: Não poderíamos pensar no caso do artista Eduardo Kac?

Laymert: Eu não gosto do trabalho do Kac, pois é uma aplicação da tecnologia à arte, uma relação utilitária. Para mim, isso não tem nenhum valor estético. Não é criação. Vale perguntar: ele está realmente discutindo aquilo que ele diz que está? Eu acho que não. Ele estaria fazendo alguma coisa pra valer se ele, além de usar a tecnologia, fizesse uma discussão de fundo sobre a criação do objeto. Mas, no momento, ele está mais interessado em colocar a assinatura dele de autor em um objeto feito por um técnico de laboratório. E isso num contexto em que o próprio autor já foi embora. Isso é regressivo. É claro que a indústria adora. Ele é financiado pela Monsanto, está trabalhando para essas empresas.

Rafael: E o caso do exoesqueleto que está sendo desenvolvido para aumentar a força e a destreza de trabalhadores? É artificialização ou concretização?

Laymert: Acho que é concretização. A máquina não percebe. Ela lê mas não vê. Ela funciona de um modo diferente do humano. Aqui não há desconstrução do humano, mas sim construção da máquina. Isso é muito diferente da semente geneticamente modificada.

Rafael: Simondon não separa homem e máquina, mas parece que separa claramente homem e natureza.

Laymert: Sim, há uma diferença clara entre natureza e cultura.

Pedro: Essa questão sempre me incomodou também. Como é possível o Simondon, que tem um pensamento tão sofisticado, se apegar a uma oposição que, na Antropologia pelo menos, já vem sendo questionada e retrabalhada há décadas? Mas aos poucos fui me dando conta de que, para Simondon, o natural e o cultural são muito mais tendências distintas de existência (à la Bergson) do que domínios pré-existentes do mundo. O ser humano, por exemplo, é um misto de natureza e cultura, mas nem por isso é impossível distinguir essas duas tendências nele. Daí o papel do objeto técnico como mediador entre o ser humano e a natureza: mais do que um mero conector entre dois seres já dados, o objeto técnico “se naturaliza” na mesma medida em que o ser humano “se culturaliza”.

Laymert: Sim, existe um substrato comum entre o artificial e o natural, mas isso não significa que são a mesma coisa. São diferentes modos de existência, como nos casos do ser físico, do ser biológico ou do ser psicossocial. Em sua obra sobre os diferentes modos de existência, Étienne Souriau considera ainda outros modos de existência, como o dos fantasmas. É possível pensar ser físico, ser vivo, ser humano, máquina, fantasmas… Ele pensa então o “entre”, para pensar o indivíduo.

Rafael: Mas a máquina abstrata então não é concreta?

Pedro: Acho que é melhor pensar que existem graus de concretização, nunca concretização ou abstração absolutas.

Léo: A concretude também está ligada à consistência do sistema de causalidades internas. Vale lembrar os casos do pentodo e da caldeira entrando no motor. A individualização do objeto técnico seria a sua concretização.

Laymert: No processo de concretização, há uma passagem do modo analítico para o concreto, na qual o objeto vai ganhando coerência. A diferença entre o artesanato e a produção industrial é útil para a compreensão desse ponto. No artesanato, estamos juntando elementos para ver como realizar um objetivo. Já na produção industrial, tais elementos ganham uma integração na qual eles passam a existir, não como uma soma de elementos, mas como um agenciamento sinergético. Assim, se no artesanato havia um agregado de operações isoladas que poderia ser desfeito sem comprometer essas mesmas operações, se tentarmos separar as operações que compõem a produção industrial não as encontraremos mais. Essa consistência que o ser técnico concreto ganhou é irreversível, ele é um agregado coerente cujos elementos não existem mais independentemente.

Diego: Mas não poderíamos dizer que, se o objeto técnico vai se concretizando, então ele vai se tornando menos compreensível, pois deixa de ser analítico?

Laymert: Não, pois o pensamento analítico não escuta mais o indivíduo técnico, ele só era adequado ao nível do elemento. É essa dimensão adicional aos elementos justapostos, esse n+1 (os elementos mais algo, que é a sinergia), que permite a compreensão da máquina, do indivíduo técnico.

[Neste momento, o problema da concretização em sua relação com a abstração gera uma grande discussão na classe.]

Pedro: Eu tenho uma pergunta: existe concretização de elementos, de indivíduos e de conjuntos, ou apenas de indivíduos?

Laymert: É apenas uma concretização, que no nível dos elementos não gera problemas, no nível dos indivíduos gera problemas, e no nível dos conjuntos permite uma possibilidade de resolução.

Léo: Mas uma evolução do motor não é necessariamente uma evolução do carro e vice-versa.

Laymert: Mas podemos falar claramente da diferença entre um carro inteligente e outro não. Existe mais potência num carro inteligente do que num velho Fusca.

[Expressão de surpresa na classe.]

Augusto: Eu sou mais o meu Fusca.

[Risos.]

Laymert: O carro inteligente é mais potente pois é resultado da concretização-resolução de potências da mecânica e da eletrônica (gerando a mecatrônica), que permite ao motorista fazer mais do que sem esse encontro. A nova máquina pode fazer mais (em termos internos, não de acordo com exigências que lhe são exteriores) do que a antiga. Ela ganhou mais coerência interna, fazendo mais coisas do que antes. Se esse ser é mais complexo, é porque ele já incorporou muito mais funções, potências, forças, do que o anterior. Mas é preciso perguntar: quando ele incorporou isso tudo, ele detonou o meio com o qual ele realiza trocas? Se ele detonou o ambiente, então ele não é consistente. A consistência de um ser está ligada à positividade que ele estabelece com o seu meio. Não é adaptação, mas troca. Buckminster-Fuller mostrou muito bem que, se detonarmos com o planeta, então vamos ser extintos. Nossa individuação perderá sua consistência. É preciso pensar o meio como meio técnico.

Uma pesquisa japonesa dos anos 1990 mostrou que, quando há essa mutação-fusão como na mecatrônica (mecânica + eletrônica), ocorre algo do tipo 1 + 1 = 3. Além dos potenciais anteriormente existentes da mecânica e da eletrônica, surgem potenciais antes inexistentes, próprios da mecatrônica. Com isso, a capacidade industrial de planejamento estratégico e identificação de concorrentes se complica, exigindo novas estratégias de espionagem industrial. Um bom exemplo disso é o caso da manteiga de cacau. Antes, o cacau era a matéria prima para este produto, de forma que a indústria sabia o universo com o qual tinha que se preocupar. No entanto, com a descoberta de diversos outros materiais (derivados de petróleo, por exemplo) que poderiam desempenhar a mesma função do cacau na produção do produto, esse universo se complicou. Se eu sou produtor de manteiga de cacau, antes eu conhecia o mercado, sabia quais os setores que me influenciavam, meus fornecedores, concorrentes etc., mas agora tenho novos problemas, pois a concorrência e a inovação vêm de lugares imprevistos. O tempo inteiro tudo está em jogo. Não é mais possível esperar o retorno econômico de uma nova tecnologia antes de lançar a próxima. E isso já no começo dos anos 1990. É o princípio do surf: surfar ou morrer. Hoje não é mais possível fazer como antes, e esperar o retorno financeiro de uma inovação para lançar a próxima. Agora eu preciso sempre lançar o último modelo, e é a propriedade intelectual que vem tornando possível a acumulação econômica nesse novo contexto. Podemos dizer que existem duas velocidades, a econômica e a tecnológica, que ultimamente começaram a entrar em conflito: a propriedade intelectual vem forçando uma redução da velocidade tecnológica em benefício da econômica.

Augusto: Atualmente, o conhecimento científico se aproxima do conhecimento tradicional para se apropriar dele.

Laymert: A ciência descobriu que é mais fácil achar os princípios ativos de plantas já conhecidas por populações tradicionais do que começar do zero no laboratório.

[Devido ao horário avançado, Laymert se encaminha então para considerações finais.]

Laymert: É importante lembrar que Simondon escreveu nos anos 1950. Desde então, o processo se complexificou infinitamente. Quando Simondon escreveu, a eletrônica ainda estava restrita ao laboratório, não estava na vida cotidiana. Isso torna seu pensamento desatualizado? É interessante que a resposta a esta pergunta seja negativa. Como ainda podemos nos interessar pelo que ele escreveu? Ora, o fato é que ele ajuda a pensar inclusive aquilo que veio depois dele. Por um lado, existe uma enorme questão política em jogo (escravização). Por outro lado, estamos atualmente num mundo da informação, e Simondon pensou justamente o mundo da informação (e não o mundo da forma), esse substrato comum ao ser físico, ao ser vivo, ao ser psicossocial e ao ser técnico. Eu nunca mais tirei Simondon da minha cabeça desde 1977, pois ele pensou sobre os problemas que são os nossos. O papel da informação na individuação de todos esses tipos de seres. É uma grande capacidade de compreensão.

Para a próxima aula, proponho lermos o segundo capítulo da primeira parte (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) e o primeiro capítulo da segunda parte (“Os dois modos fundamentais da relação do homem ao dado técnico”). Simondon fala rigorosamente sobre uma coisa nova e muito sutil, que vai se concretizando com a leitura. Espero que todos se apaixonem pelo pensamento simondoniano.

Redator: Pedro P. Ferreira

:::::::::: OUTRAS AULAS :.

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