Aula do Laymert (30/03/2011)


Imagem: Imagem de tecido Jalq’a obtida na Internet. Na aula, Laymert usou este tipo de tecido como exemplo de técnica artesanal, apontando sua especificidade frente à tecnologia industrial do tear de Jacquard.

:::::::::: OBS :.

Este é o resultado de minhas anotações durante a terceira aula do professor Laymert Garcia dos Santos na disciplina de pós-graduação SO141 – Tópicos Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II, ocorrida no dia 30 de maio de 2011, na sala 13-B do prédio da pós-graduação do IFCH/UNICAMP.

Desta vez, além das limitações de sempre, foi a intensidade da discussão, da qual eu mesmo tentava participar, que muitas vezes me obrigou a deixar a digitação de lado. Com isso, muitas idéias discutidas em sala não foram registradas aqui, e alguns lapsos acabaram ficando.

:::::::::: REGISTRO :.

Na última aula havíamos combiando de ler, de Du mode d’existence des objets techniques (MEOT), o segundo capítulo da primeira parte (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) e o primeiro capítulo da segunda parte (“Os dois modos fundamentais da relação do homem ao dado técnico”). Laymert começa a discussão perguntando se houve dificuldade na leitura, comentando que ele próprio teve dificuldades na leitura do segundo capítulo da primeira parte.

Laymert: Houve dificuldades? Eu tive dificuldades para reler ontem. Mais dificuldades com o primeiro (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) do que com o segundo, que trata de coisas mais próximas, do campo da cultura. Inclusive por isso, acho que deveríamos começar colocando este capítulo em cima da mesa hoje, pois são as categorias fundamentais: elemento, indivíduo e conjunto. É inclusive significativo que o próprio Simondon nos mostre que evolução técnica é superação de obstáculos. É a superação de obstáculos, transformação do negativo em positivo, que está no coração da operação técnica. Então, começo meio brincando, dizendo que a discussão aqui será “técnica” pois começaremos com as dificuldades para entender esses dois capítulos, principalmente o primeiro (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”).

Pedro: É curioso, eu tive a impressão oposta. Tive mais facilidade com o primeiro do que com o segundo. Acho que principalmente pois o conceito de cultura com o qual ele trabalha me é estranho, ligado à literatura e à erudição, talvez muito “francês”. Em outros lugares, nos Estados Unidos por exemplo, é diferente.

Laymert: Mas nós aqui temos essa cultura bacharelesca. Essa é a cultura de muita gente. Aqui na sala mesmo deve ser. Além disso, a permeabilidade da técnica na sociedade já era grande nos anos 1950, mas ainda não tinha adquirido a dimensão que teria posteriormente. Estranho um pouco o seu comentário, pois a cultura é tão dissociada da técnica que são dois ministérios separados no governo brasileiro. Gil foi gênio por tentar aproximar os ministérios da cultura e da tecnologia. Depois que Gil e Juca saíram do ministério tudo se separou novamente. Simondon percebe como a concepção francesa de cultura separa técnica de cultura e é importante notar como ele volta para a enciclopédia e faz uma leitura muito especial dela, mostrando o seu papel e o seu valor político e social. É um corte com o Antigo Regime.

Rodolfo: É, meu conceito é de fato mais velho (literário). No primeiro capítulo (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) os exemplos são mais difíceis. Exigem já uma “cultura técnica”.

Léo: Simondon é físico e filósofo, por isso ele pode dar esses exemplos. Tem partes do texto que eu não tenho a menor idéia do que ele está falando, nem uma imagem mental do que ele está falando. Por exemplo, “diodo”, “triodo”, eu tive que ir na internet ver o que é isso que ele está falando. Daí eu vi que era uma válvula que tem em amplificadores etc. Peguei um manual de eletrônica e comecei a entender o que ele está falando. Mas tem coisas que eu não consigo encontrar e aí eu não entendo. A primeira vez que eu li eu passava batido por essas partes. Mas tem certos exemplos que ajudam muito a entender o argumento, como o exemplo do motor para falar da relação do objeto técnico com o meio ambiente.

Laymert: Ou seja, quando você consegue entender o exemplo, fica muito claro o argumento. Quando você não conhece o mecanismo e passa batido, aí tem um problema. Eu passo batido, não tenho o menor saco para ler esse pedaço. Eu não tenho cultura técnica. Eu precisaria prestar atenção nisso. Colocar o motor em cima da mesa e ver isso direito. Os exemplos são centrais.

Guilherme: Eu tive a mesma impressão. Os exemplos me são opacos. Não tenho como avaliar todo o raciocínio baseado nessa realidade. Pensei até em perguntar a um técnico ou fazer um curso de mecatrônica.

Léo: Não temos uma cultura técnica e portanto não conseguimos entender a relação entre cultura e técnica. Daí a idéia simondoniana de que precisamos de uma educação técnica desde criança.

Laymert: Além disso, ele extrai pensamento do objeto técnico. É porque ele conhece bem o modo de funcioanmento e as transformações nesse modo de funcionamento que ele pode passar de um mecanismo “x” para um “y” e dizer se tem ruptura ou continuidade, e enumerar toda uma série de nuanças e singularidades sobre essa passagem. É uma questão de falta de culturade nossa parte, mas é também um efeito do aparente absurdo que é extrair pensamento do funcionamento. Isso, do ponto de vista metodológico, é fantástico. Apesar de ser chato para nós que assumimos o ponto de vista humanístico e não enfrentamos o obstáculo, é preciso atentar para o fato de que é só por se interessar pelo funcionamento que Simondon extrai dele um pensamento. Esse pensamento não é, em termos simondonianos, a priori. O pensamento é construído junto. Não existe nada dado previamente. É da relação, do agenciamento (no sentido de Deleuze e Guattari), da articulação, que ele tira o pensamento. Para fazer isso, ele precisa ter um olhar retrospectivo sobre a técnica anterior, olhando para trás, e perceber o que é continuidade e o que é ruptura, quais são as categorias com as quais pensar o objeto técnico. Ele extrai isso do próprio modo de existência, do funcionamento do objeto.

Seria interessante compararmos a metodologia do Simondon para pensar a evolução dos objetos técnicos com a do Buckminster-Fuller no livro Critical path, livro este fundamental para pensar sobre tecnologia. Não poderemos explorar esse paralelo aqui, mas é bom indicar que os dois estão olhando a questão da evolução, só que de maneiras diferentes. Os dois estão interessados em ver essa evolução a partir da questão da informação, e Buckminster-Fuller também vai se interessar profundamente pela cibernética. Mas Simondon é um pensador, um filósofo, enquanto Buckminster-Fuller é um inventor. Ele fez muitas invenções, algumas que só estão sendo concretizadas agora. Ele sabia que cada ramo de tecnologia (linhagem tecnológica) tem um tempo de gestação e que havia um hiato entre a invenção e o seu “nascimento social”. Ele se interessou por monitorar esse hiato, e percebeu que, na década de 70, tudo dispara. Não deve ser por acaso que Buckminster-Fuller e Simondon são dessa mesma época, quando tudo dispara, quando a informação se torna mais uma dimensão da matéria, quando a informação dispara a tecnologia. O pensamento de Buckminster-Fuller é diferente, paralelo ao do Simondon. Acho que Simondon vai pensar de um jeito mais rigoroso, cartesiano, do que o Buckminster-Fuller. É legal ver como dois grandes pensadores da tecnologia pensam esse movimento.

Quem tem 30 anos de idade hoje deveria ler esses dois caras para adquirir um arsenal teórico para pensar as questões atuais sobre tecnologia. Eu não conheço outro pensamento mais potente e valioso sobre tecnologia do que o de Buckminster-Fuller e o de Simondon. Buckminster-Fuller tem ainda um lado artista que é fundamental. Critical path era livro de cabeceira de John Cage. Buckminster-Fuller teve uma crise aos 20 anos de idade, tentou se matar, ficou dois anos isolado estudando Einstein e Leonardo da Vinci, para depois influenciar toda a ciência contemporânea, como no caso das “Bucky balls” em nanotecnologia.

Pedro: Fico pensando se Buckminster-Fuller e Simondon experimentaram as drogas típicas da contra-cultura dos anos 1960-70, e se isso teve alguma influência no seu pensamento.

Laymert: Buckminster-Fuller logo percebeu que, para mudar as pessoas, é mais fácil mudar o ambiente no qual elas estão do que a consciência delas. Você muda a cabeça das pessoas mudando o ambiente, a transformação do ambiente transforma o homem. Quando ele descobriu isso, ele deixou de lado a política e focou na tecnologia. Não sei se Simondon experimentou drogas, mas nos anos 1960-70 havia um consenso sobre o valor da alteração da consciência para pensar questões ligadas às tecnologias da informação. O exemplo mais famoso é o Thimothy Leary. Podemos também lembrar do papel da cocaína para Freud e Jung pensarem o inconsciente e do ópio para Baudelaire pensar a modernidade. O Sloterkjik atualmente fala sobre como o primado da ciência hoje desqualifica outros modos de conhecimento.

Léo: Acho que o uso de Ritalina como droga acadêmica para aumentar a produtividade tem a ver com isso. A droga começa a mudar de função quando fica careta. Aqui não se trata de ampliar a visão da realidade e sim de acompanhar a pressão da produção.

Laymert: Isso é um efeito de um tipo de relação ciência-mercado. O Pedro falou sobre o uso de drogas para pensar novas realidades, alcançar novos conhecimentos. Mas, fazendo ainda outras relações, pensei no caso do delírio do presidente Schreber, analisado por Freud, e que até muito recentemente era visto como um exemplo de um grande delírio psicótico cujo interesse principal era a patologia. Mas há poucos dias fiquei sabendo que as memórias de Schreber começaram a ser lidas como altíssima poesia, e quando isso acontece ele é tirado da dimensaõ patológica e passa a ser lido como uma percepção cósmica absolutamente fantástica. O interesse vai se voltar para o uso da linguagem, para o tipo de percepção está sendo desenvolvido ali. Mudou o registro. Puxo este exemplo pela questão da ampliação dos estados alterados.

Rafael: O Deleuze não fazia experimentos com álcool?

Laymert: Deleuze fazia muitas experiências com estados alterados de consciência. Sartre tomou anfetaminas para escrever O ser e o nada. Há toda uma linhagem de filósofos que só pensavam o que pensavam por conta dessas experiências. É comum também que surja um interesse pelo selvagem, pelo primitivo, como no caso do Artaud, que foi tomar peyote com índios mexicanos. O interesse pela Arte Bruta (art brut), que voltou a crescer, também está ligado a isso.

Emerson: O uso de drogas não pode ser uma tecnologia?

Laymert: Esses agenciamentos aberrantes dizem alguma coisa sobre um plano da realidade que escapa à percepção habitual. Existem artistas que trabalham apenas com o desvio de função de máquinas. Elas funcionam, mas de um jeito outro. As máquinas fazem coisas absurdas. Tingely fez isso. Pegou seu grande conhecimento de mecânica para fazer dele a não-produção. Ele produz não-produção. O interessante é o barato das maquinações. É como se ele pegasse todos esses agenciamentos e os enlouquecesse. Isso não é contrário ao que estamos estudando aqui. Desvio de função é justamente a invenção, descontinuidade, reconfiguração do conjunto, um salto.

Rodolfo: O Simondon vai pensar o funcionamento imanente da máquina para depois chegar à descrição filosófica. Como passar disso para o simbólico? Como a técnica vai entrar na cultura?

Laymert: Acordei essa noite com isso na cabeça, pensando sobre a aula. O objeto técnico tem uma existência real, mas esta existência é ao mesmo tempo concreta e pensada. É um pensamento concretizado. A técnica é a interface entre o abstrato e o concreto. O pensamento está dos dois lados. Minha sensação ao ler Simondon é de ser, ao mesmo tempo, uma coisa muito concreta e muito abstrata. Como? Ora a própria máquina é abstrata e concreta, simultânea e sucessiva, existe dentro de mim (na minha cabeça) e fora de mim (no mundo). O que existe objetivamente lá fora só existe pois foi pensado. Para pensar toda a complexidade objetiva da técnica é preciso pensar sobre esse pensamento. É completamente objetivo, mas é meta-objetivo. É preciso pensar sobre o modo de pensar sobre o objeto. Então, é comum na leitura de Simondon, você começar a ler a frase, mas depois precisar recomeçar por não ter ficado concreto para você. Aí está o obstáculo.

Emerson: É a falta de cultura técnica. Se já é difícil pensar no caso da termodinâmica, quando pelo menos podemos colocar um motor em cima da mesa, fica mais difícil ainda pensar no contexto da informática. Considerando o estágio de desenvolvimento da informática na época do livro, é impressionante a capacidade de Simondon de, como Marx, pensar sobre aquilo que ainda estava se gestando.

Laymert: Ele percebeu que havia uma nova revolução em andamento. Ele pensou o que hoje é banal quando ainda não existia.

Pedro: Eu tenho uma pergunta específica. Queria saber porque no MEOT ele fala de “individualização” do objeto técnico enquanto em L’individuation à la lumière des notions de forme et d’individuation (ILNFI) ele usa o termo “individuação”. É a mesma coisa ou são coisas diferentes?

Laymert: Até onde sei é a mesma coisa. Entendo que Simondon usa o termo “individualização” quando adota a perspectiva da relação com o indivíduo humano, e “individuação” quando adota a perspectiva da relação com a informação. São dois recortes específicos, mas o processo é o mesmo.

[Tenho a impressão de ter perdido alguma coisa aqui na continuidade da fala do professor]

Em MEOT, Simondon fala de recalque, que é diferente de repressão. Na repressão você sabe que está sendo afetado e sabe quem está afetando. No recalque não. É da natureza do recalque que este seja ligado a algo desconhecido, obliterado, mas existente – existente mas inconsciente. O retorno do recalcado é o retorno de algo que existia, que estava maquinando (no sentido de Deleuze e Guattari), produzindo efeitos, mas que estava oculto. Simondon está falando do retorno do recalcado. A importância da distinção elemento-indivíduo-conjunto é trazer à tona o recalcado. Temos uma relação mal resolvida com a técnica. Há um iluminismo-enciclopedismo no Simondon, mas também há no Freud. Retorno do recalcado, iluminismo.

ALUNA: Tenho uma dúvida sobre a distinção entre conhecimento prático e conhecimento teórico, que Simondon liga, respectivamente, à criança e ao adulto. O conhecimento prático não é também reflexivo? Como no caso do computador yanomami que você mencionou na última aula?

Laymert: É um bom exemplo. Aquele canudo funciona como um agenciamento técnico. O xamã incorpora imagens, que ele aprendeu a sintonizar. Ele percebe as imagens passando e consegue descrevê-las, narrá-las. Eles vêem como nós vemos TV – uma TV fantástica, não a “Grôbs” [risos]. É uma questão de resolução. O conhecimento que existe aí é aprendido. O xamã sabe acessar o virtual. Eles compartilham essas imagens captadas. E há perigo nessa captação.

Se os Yanomami são “crianças” na terminologia de Simondon, isso não é um julgamento de valor, e sim uma distinção conceitual. É de uma passagem do conhecimento operatório para um conhecimento teórico que se trata. O que veio antes não é pior do que o que veio depois. Tudo é fundamental.

Sabemos que a história da computação começa com Jacquard, que inventou um sistema de tecer. É programação digital. O tear é praticamente um computador. Pois bem, vejamos o caso do povo Tarabu da Bolívia. Quando veio a colonização espanhola, eles se dividiram em Tarabuco e Jalq’a, tornando-se aquele o povo do dia e este o povo da noite. Esses povos são conhecidos pelo tecido que eles produzem. Os Tarabuco, que ficaram com o dia, tramam a vida cotidiana. Suas estampas seguem um padrão fixo, que pode ser lido como uma estória em quadrinhos. Eles usam isso na roupa, que assim os identifica a um dos dois povos. Já o povo da noite só usa preto e vermelho e tece o invisível. É o mundo das sombras, monstros desenhados em todas as direções, uns dentro dos outros, de forma que não se sabe o que é figura e o que é fundo. Quando você vê a mulher Jalq’a tecendo, nota que ela decide na hora o que vai tecer. A figura sai do fundo e volta. É altíssima computação. É como se ela tivesse um software fabuloso na cabeça dela. Como o cartão perfurado do Jacquard, só que mais complexo, porque no Jacquard a imagem é parada, figura e fundo são destacados. Quando não há essa distinção, há um vai-vem constante. A passagem da imagem está acontecendo na mão, na cabeça e no tecido, tudo junto no momento em que ela está sendo feita. Há aqui uma complexidade operatória. Isso estava em desaparecimento e uma antropóloga chilena viabilizou um atelier para manter a prática, no qual pessoas podem comprar esses tecidos. A iniciativa foi bem sucedida, e é interessante notar que, diante da maior independência econômica das mulheres (tradicionalmente, apenas as mulheres se dedicam a essa atividade), os homens começaram a tentar produzir estampas também, mas eles não conseguem juntar figura e fundo. Fica tudo separado.

Emerson: Aproveito para lembrar que a primeira programadora era mulher.

Laymert: O tecido Jalq’a é considerado artesanato. Ninguém considera isso arte elaborada. Ademais, a tecelã terá que usar as mãos se quiser explicar o que faz. Ela é uma artesã, no sentido simondoniano. No entanto, a questão da oposição entre um saber já teorizado e o saber do artesão (ligado diretamente ao conhecimento da matéria, operatório) é equivocada. Não é oposição, mas sim modos de relação com a técnica. Se estamos na terceira revolução industrial, precisamos pensar as relações entre técnicas e tecnologias. A sistematização abstrata dos conhecimentos e das técnicas agenciados hoje já fundam uma tecnologia que precisa ser pensada.

Thiago: Eu gostaria de fazer uma pergunta sobre o tema da imprescindibilidade ou não do humano. Na última frase do último capítulo discutido na última aula (“Gênese do objeto técnico: o processo de concretização”), Simondon diz: “Sem a finalidade pensada e realizada pelo ser vivo, a causalidade física não poderia, sozinha, produzir uma concretização positiva e eficaz.” (p.49) Isso para mim complica a idéia de que a máquina possa substituir o humano e existir independentemente dele.

Laymert: O humano nunca será supérfluo, mas ele muda de função, de papel. O humano não é da mesma natureza do técnico. A evolução vital é paralela à técnica, mas não há analogia. A confusão entre essas duas evoluções foi justamente o erro da cibernética.

Pedro: Mesmo assim, a idéia de uma diferença radical entre o ser vivo (natural) e o ser técnico (artificial tendendo à naturalização) parece não ter permitido que Simondon pensasse toda a artificialização do humano que vem ocorrendo cada vez mais. Por exemplo, quando Simondon compara os órgãos no indivíduo vivo aos elementos no indivíduo técnico, ele faz questão de acrescentar a ressalva de que, enquanto podemos usar livremente elementos de um conjunto dado na composição de novos indivíduos, não podemos transplantar órgãos entre indivíduos de espécies diferentes. Ora, atualmente isso é comum, e junto com outras diversas práticas, vai na direção de uma artificialização do humano com a qual Simondon parece não ter se preocupado.

Thiago: Sim, me parece que o problema maior não é a humanização das máquinas, mas sim a mecanização do humano.

Laymert: Mas essa é a mesma questão invertida, coisa sobre a qual já falamos na última aula.

Thiago: Mas precisamos pensar sobre a questão.

Laymert: Certamente, o problema é a concepção da natureza humana. Simondon realmente não previu a crescente artificialização. Mas também está havendo uma extrema concretização. Estamos indo para ambos os lados. Talvez isso implique numa implosão do enciclopedismo ao qual se refere Simondon. Mas isso não torna Simondon ultrapassado, inclusive pois, na minha opinião, sua obra maior (ILNFI) supre essas possíveis limitações de MEOT quando pensa a individuação a partir da informação.

Rafael: A meu ver, o capitalismo exige a artificialização.

Laymert: De fato, se eu posso fazer uma transformação genética (somática ou generativa) que me permita melhorar meu desempenho em alguma área na qual eu possa me destacar, eu faço. Um filme que tratou dessas questões é GATTACA.

Aluno: Existem também casos [ele cita alguns exemplos, entre eles o marcapasso] em que há hibridismo homem-máquina, quando não se pode saber se o que ocorre é uma artificialização do humano ou uma naturalização da técnica.

Laymert: Simondon permite entender o que é exclusivo do ser vivo, o que é exclusivo do ser técnico, e o que é comum a ambos. O que ambos compartilham é a informação. Esse compartilhado pode ser orientado rumo à concretização ou rumo à artificialização. O importante é ver a tecnicidade e o papel da informação na concretização dessa tecnicidade, e isso do ponto de vista humano e não-humano. O problema não é a artificialização, mas sim as implicações não pensadas dessa artificialização. Se é o capital que está mandando no processo, então não se trata mais de concretização técnica. Se a melhoria genética tem uma finalidade exterior, então não se trata de uma questão de coerência interna. A finalidade precisa ser interna ao objeto técnico, e não externa. A crítica não deve ser dirigida à técnica, mas sim à relação entre as acelerações tecnológica e econômica capitalista, ao fato de que esta está comprometendo aquela. É o feitiço-fetiche da mercadoria.

Diego: Então, em lugar de pensar a diferença entre o vivo e o técnico, temos que pensar o que eles têm em comum.

Thiago: Mas isso é possível dentro do capital? O capital permite essa nova relação com as máquinas?

Laymert: O capital tende a orientar a nossa percepção. Mas isso não quer dizer que nada escape dele. Na verdade, escapa para todo lado. Esse é o problema do capital. Não se trata de perguntar o que o capital permite ou não permite. O capital quer controlar para apropriar. É preciso encontrar uma maneira de tirar o corpo fora. Para isso, precisamos alcançar uma compreensão de nosso lugar nessa trama. Não devemos esperar nada do capital, exceto a lógica da valorização. Walter Benjamin já dizia que o capitalismo é “a liquidação de todos os valores”, exceto do valor abstrato, do “valor + valor”. O caráter incontornável do Marx é ter revelado que o fetiche da mercadoria rege a sociedade capitalista. Não existe outro valor além do econômico.

Pedro: Aproveitando o assunto, queria comentar que a relação entre técnica e economia não parece ter merecido a atenção de Simondon. Ele faz algumas menções a Marx em MEOT, mas ele geralmente coloca de lado qualquer problemática econômica dizendo que ela é extra-técnica e, portanto, inessencial ao seu objeto.

Laymert: Simondon trata da problemática econômica quando diferencia trabalho de invenção. Podemos dizer que existem dois movimentos imanentes: o do capital e o da técnica. Parece-me que Simondon trata apenas do movimento imanente da técnica, ao passo que Marx reificou o trabalho pois não se interessou pela invenção. Se quisermos encontrar esses dois movimentos imanentes sendo bem trabalhados em conjunto, teremos que ler o “Tratado de nomadologia” de Deleuze e Guattari (em Mil Platôs).

Emerson: É possível dizer quem surge antes, se é o objeto técnico ou o conjunto técnico?

Laymert: Essa é uma pergunta do tipo “o ovo ou a galinha”. Mas o problema da invenção embaralha as causalidades pois o objeto concretizado é a condição de sua própria concretização. Todas as condições para uma concretização do movimento imanente da técnica só estarão presentes quando surgir uma configuração que permita essa concretização. É uma conjunção. O problema da técnica não é técnico, é social (num sentido amplo). As condições objetivas de concretização técnica são extratécnicas.

Diego: Estou pensando sobre o problema da porção humana e da porção técnica do objeto técnico. No caso do motor parece mais fácil fazer essa distinção do que no caso das redes informacionais. Qual é o papel do humano numa rede informacional?

Laymert: É preciso olhar não para os humanos e os hão-humanos, mas para as maquinações que passam de um para o outro. O fato de que podemos pensar em maquinações diferentes para humanos e não-humanos não significa que não possamos pensar ao mesmo tempo num nível comum a ambos.

Aluno: Um software também pode ser pensado em seu processo de concretização.

Laymert: Sim, evidentemente, e aí está o interesse dos movimentos de software livre nas suas diversas variantes mais ou menos radicais. O software livre busca o movimento da tecnicidade, em oposição à lógica do capital.

Aluna: Mas Simondon supõe uma filosofia não-autocrática das máquinas dentro do capitalismo?

Laymert: Sim, pois o capitalismo não será superado sem uma conscientização dos modos de existência dos objetos técnicos. As máquinas não podem ser tratadas como escravas, o que foi feito tanto pelo capitaliso quanto pelo comunismo.

Emerson: É importante notar que Simondon nunca fala de “inovação”, que é o termo privilegiado pelo capitalismo contemporâneo, ele fala apenas de “invenção”.

Laymert: Sim, o inventor é aquele que olha para um incompatível, vê a articulação de forças, e imagina uma alternativa, outra configuração, que promova consistência e coerência interna.

[Após mais alguns comentários que infelizmente escaparam ao redator, Laymert encaminha o encerramento da aula e combina a leitura para a próxima aula]

Laymert: Buckminster-Fuller percebeu muito cedo que teria que escolher entre fazer dinheiro ou fazer sentido. Ele escolheu fazer sentido. Se você quiser se revoltar contra uma ordem social, primeiro precisa saber como funciona esta ordem. Daí a importância contemporânea de Simondon para nós que vivemos em um mundo cada vez mais controlado por meio das tecnologias da infornação. Para a próxima aula, proponho discutirmos o segundo capítulo da segunda parte (“Função reguladora da cultura na relação entre o homem e o mundo dos objetos técnicos: problemas atuais”).

Redator: Pedro P. Ferreira

:::::::::: OUTRAS AULAS :.

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