Direitos animais e as lágrimas dos objetos (Viveiros de Castro 2012)


OBS.: Este post é a transcrição de parte da resposta de Eduardo Viveiros de Castro a uma questão do público durante a mesa de abertura (Modos de Existência) do evento Informação, tecnicidade, individuação: a urgência do pensamento de Gilbert Simondon, ocorrido no IFCH/Unicamp entre 2 e 4 de abril de 2012.

Eu vejo a questão dos direitos dos animais como um sintoma muito importante da crise (que nós estamos vivendo) da própria noção de humanidade. A priori eu sou – e como poderia não ser – simpático à ideia, ainda que ela me pareça claramente uma ideia limitada. Mas eu acho que ela é parte de uma coisa muito mais geral que envolve essa tentativa de se reindividuar, no sentido simondoniano. Um processo de reindividuação, uma nova individuação que a espécie humana. Para Simondon a individuação é a resolução de um problema de uma determinada incompatibilidade no sentido de gerar uma nova forma. Acho que essa síndrome do pânico metafísico que nós vemos hoje é uma crise extremamente decisiva pela qual a espécie está passando. E é uma crise técnica também, porque o direito é uma técnica política fundamental, crucial.

Estive na França num debate sobre alguma coisa como a invasão da antropologia pelos animais. Claramente, havia uma sensação de desconforto com essa animalização generalizada da antropologia; pessoas (filósofos) que se indignavam com a noção de Direitos Animais, por todas as razões possíveis. Uma pessoa ficou bastante indignada quando eu disse que há alguns séculos houve um Concílio católico que recusou às mulheres a condição de sujeitos de direito. Ela achou a comparação absurda. Mas eu acho que, na verdade, os Direitos animais são parte de um processo de progressivo borramento das fronteiras do que é a humanidade. Talvez o animal e o não animal seja o critério, talvez seja o vivo/não vivo. Mas me incomoda um pouco certo vitalismo. Acho que a noção de “vida não orgânica”, como diria Deleuze, seja um pouco mais interessante. Eu acho que uma das contribuições mais interessantes do pensamento indígena para a filosofia, ou algo que ele compartilha como uma tradição totalmente oculta do pensamento ocidental, é o pampsiquismo: a ideia de que, se o homem é possível, é porque tudo é humano. Ou, como diz Tarde, a inteligência humana é apenas um caso particular do psiquismo. Então, o psiquismo é substrato do real. Essa ideia, que está presente nos índios, não faz distinção entre o vivo e o não vivo nos mesmos termos que nós. Tudo é vivo; mais que isso, tudo é humanizável. Isso me parece ter consequências “para-jurídicas”, pois o direito serve, sobretudo, para negar direitos a alguma coisa ou a alguém. Então, eu pergunto: o que o direito dos animais está excluindo? Eu não sei.

Eu li a seguinte frase em um livro chamado Dreamtime, de Hans Peter Duerr (um estranho antropólogo alemão que valia a pena ser mais lido): “O objeto chora, mas o cientista não ouve as lágrimas”. Ou como diria Latour: “o neutrino reage”. Ou Stengers: “o neutrino desafia o cientista”. O cientista tem que achar um jeito de fazer o neutrino falar, e isso é complicado.

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