Deleuze e Meillassoux, demolição da universidade e filosofia no twitter (Viveiros de Castro 2012)


OBS.: Este post é a transcrição de partes de respostas de Eduardo Viveiros de Castro a questões do público durante a mesa de abertura (Modos de Existência) do evento Informação, tecnicidade, individuação: a urgência do pensamento de Gilbert Simondon, ocorrido no IFCH/Unicamp entre 2 e 4 de abril de 2012.

Repentinamente, as pessoas se deram conta de que a metafísica tinha voltado. Ela, na verdade, voltou antes. Talvez seja o Deleuze a pessoa que ousou retomar a metafísica, recolocar a questão da metafísica em um momento em que nós estávamos dominados pela filosofia da linguagem ou por uma antropologia filosófica geral (enfim, uma celebração da linguagem, o Heideggerianismo frenético). Talvez Deleuze tenha sido o sinal inicial “precursor” (para usar uma linguagem dele), dessa renovação da metafísica.

O Meillassoux vai numa direção muito diferente. Ele é um Badiouiano. Mas é um autor muito interessante pela ousadia, pela coragem de retomar o argumento ontológico, a seu modo (não é assim que ele diz, mas é assim que ele faz), de retomar questões medievais. Eu acho que esse pulo pra trás é um pulo pra frente também. E, sobretudo, atravessar o Canal da Mancha: é uma coisa nova que está acontecendo esse encontro das filosofias de língua inglesa com as filosofias, chamadas, “continentais”. Em parte, eu acho que é em função da demolição da Universidade, em particular nos países Anglo-saxões, em que a filosofia analítica controlava as Universidades.

As Universidades não existem mais, praticamente – isso está chegando aqui também. Acho que isso, do ponto de vista da filosofia, é muito bem-vindo. Enfim, que a filosofia não se faça mais dentro da Academia, porque a Academia acabou. É hora de a filosofia ir para outros lugares. A internet é um ótimo lugar pra ela ser praticada. De preferência, no twitter.

[…]

Talvez a a Universidade seja a instituição mais antiga depois da Igreja – ou melhor, dentro da Igreja. A Universidade é uma forma de monasticismo leigo que está acabando. Finalmente, o mercado tomou a Universidade. É um fato. Eu acho que nós temos que passar a dar aula em casa. Cobrando, é claro.

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O perigo da experiência estética (Laymert Garcia dos Santos 2012)


OBS.: Este post é a transcrição de parte da resposta de Laymert Garcia dos Santos a uma questão do público durante a mesa de abertura (Modos de Existência) do evento Informação, tecnicidade, individuação: a urgência do pensamento de Gilbert Simondon, ocorrido no IFCH/Unicamp entre 2 e 4 de abril de 2012.

Suspeito que a experiência dos xamãs é, ao mesmo tempo, estética e perigosa – não pelo que é descrito a respeito dessa experiência, mas pelo seu grau de radicalidade. Basta pensarmos, por exemplo, na imensa força de desterritorialização da Yakoana e em como um jovem xamã Yanomami precisa aprender a lidar com essa desterritorialização já no início de sua iniciação, quando ocorre o despedaçamento do seu corpo e sua recomposição de um outro modo. Suspeito que existe um perigo muito grande de enlouquecimento aí, se não houvesse um acompanhamento por parte dos xamãs mais velhos e mais experimentados, que vão orientando o iniciando dentro do processo.

No caso do Souriau, o par de termos que ele invoca para qualificar a experiência estética quando ela é efetiva – ou “instauradora”, como ele diz –, é “sublime e perigo”, juntos. Essa impressão estética verdadeira implica uma espécie de ultrapassamento muito radical de si mesmo na experiência, pois se dá no encontro com o real, para além da obra de arte.

Então me parece que, pelo que vejo acontecer com os xamãs, a radicalidade do processo no qual eles entram é inimaginável para nós, acho que a gente não suportaria. O paralelo que eu tentei fazer foi mostrar que, do lado de cá, quando se pensa radicalmente a respeito do que poderia ser algo parecido com isso, o Souriau fornece uma pista dizendo que seria esse “sublime perigoso”.

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Direitos animais e as lágrimas dos objetos (Viveiros de Castro 2012)


OBS.: Este post é a transcrição de parte da resposta de Eduardo Viveiros de Castro a uma questão do público durante a mesa de abertura (Modos de Existência) do evento Informação, tecnicidade, individuação: a urgência do pensamento de Gilbert Simondon, ocorrido no IFCH/Unicamp entre 2 e 4 de abril de 2012.

Eu vejo a questão dos direitos dos animais como um sintoma muito importante da crise (que nós estamos vivendo) da própria noção de humanidade. A priori eu sou – e como poderia não ser – simpático à ideia, ainda que ela me pareça claramente uma ideia limitada. Mas eu acho que ela é parte de uma coisa muito mais geral que envolve essa tentativa de se reindividuar, no sentido simondoniano. Um processo de reindividuação, uma nova individuação que a espécie humana. Para Simondon a individuação é a resolução de um problema de uma determinada incompatibilidade no sentido de gerar uma nova forma. Acho que essa síndrome do pânico metafísico que nós vemos hoje é uma crise extremamente decisiva pela qual a espécie está passando. E é uma crise técnica também, porque o direito é uma técnica política fundamental, crucial.

Estive na França num debate sobre alguma coisa como a invasão da antropologia pelos animais. Claramente, havia uma sensação de desconforto com essa animalização generalizada da antropologia; pessoas (filósofos) que se indignavam com a noção de Direitos Animais, por todas as razões possíveis. Uma pessoa ficou bastante indignada quando eu disse que há alguns séculos houve um Concílio católico que recusou às mulheres a condição de sujeitos de direito. Ela achou a comparação absurda. Mas eu acho que, na verdade, os Direitos animais são parte de um processo de progressivo borramento das fronteiras do que é a humanidade. Talvez o animal e o não animal seja o critério, talvez seja o vivo/não vivo. Mas me incomoda um pouco certo vitalismo. Acho que a noção de “vida não orgânica”, como diria Deleuze, seja um pouco mais interessante. Eu acho que uma das contribuições mais interessantes do pensamento indígena para a filosofia, ou algo que ele compartilha como uma tradição totalmente oculta do pensamento ocidental, é o pampsiquismo: a ideia de que, se o homem é possível, é porque tudo é humano. Ou, como diz Tarde, a inteligência humana é apenas um caso particular do psiquismo. Então, o psiquismo é substrato do real. Essa ideia, que está presente nos índios, não faz distinção entre o vivo e o não vivo nos mesmos termos que nós. Tudo é vivo; mais que isso, tudo é humanizável. Isso me parece ter consequências “para-jurídicas”, pois o direito serve, sobretudo, para negar direitos a alguma coisa ou a alguém. Então, eu pergunto: o que o direito dos animais está excluindo? Eu não sei.

Eu li a seguinte frase em um livro chamado Dreamtime, de Hans Peter Duerr (um estranho antropólogo alemão que valia a pena ser mais lido): “O objeto chora, mas o cientista não ouve as lágrimas”. Ou como diria Latour: “o neutrino reage”. Ou Stengers: “o neutrino desafia o cientista”. O cientista tem que achar um jeito de fazer o neutrino falar, e isso é complicado.

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Urgente – Grupo Saravá está prestes a perder seu principal servidor!

PRIMEIRO ROUBO DE DADOS APÓS APROVAÇÃO DO MARCO CIVIL:
ATAQUE POLICIAL À PRIVACIDADE PODE OCORRER DEPOIS DE EVENTO NETMUNDIAL.

Por conta de um processo que corre em segredo de justiça contra a Rádio Muda, a mais antiga rádio livre em operação no Brasil, o principal servidor do Grupo Saravá poderá ser apreendido nesta próxima segunda-feira 28/04 às 13:00.

clique e saiba mais

 

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por | abril 28, 2014 · 1:57 pm

Tradicional, moderno, contemporâneo (Laymert Garcia dos Santos 2014)


Palestra de encerramento do 1o Fórum do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (1FPPGS) do IFCH/Unicamp. Baixe o arquivo flv aqui.

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ESC2 | Programação Completa

Espectro, Sociedade e Comunicação 2: O rádio digital no contexto brasileiro |26-28 de nNovembro de 2013

A programação completa da segunda edição da conferência internacional “Espectro, Sociedade e Comunicação” já está disponível no site do evento: PROGRAMAÇÃO

E as inscrições para participar das atividades seguem abertas: INSCRIÇÃO

Notícias e informações podem ser acompanhadas no página do evento no twitter: @ESC_2_2013

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ESC2 | O rádio digital no contexto brasileiro

ESC2 | Espectro, Sociedade e Comunicação

A segunda edição da Conferência Internacional ESPECTRO, SOCIEDADE E COMUNICAÇÃO [ESC] será dedicada especialmente ao tema do rádio digital, visando abordar questões relativas à interatividade por esse meio e à alocação do espectro necessária para sua implementação.

Sob coordenação do Laboratório Telemídia do Departamento de Ciência da Computação da PUC-Rio em parceria com o Grupo de Pesquisa CTeMe do IFCH-UNICAMP, com a Associação Mundial das Rádios Comunitárias (AMARC-Brasil) e com o Grupo Saravá.org, contando com financiamento da CAPES, através do programa PAEP, e da Open Society Foundations, o evento será realizado na PUC-Rio, na cidade do Rio de Janeiro.

Buscando fomentar a produção de conhecimento, de inovação e o intercâmbio tecnológico sobre Rádio Digital, abordando e tratando o tema de modo interdisciplinar, reuniremos importantes atores da academia nacional, da sociedade civil organizada, engenheiros e gestores que participam ativamente do processo de definição do padrão do Sistema Brasileiro de Rádio Digital (SBRD).

Entendemos que essa composição se faz necessária, pois se trata de uma questão eminentemente tecnológica que, no entanto, é portadora de importantes implicações sociais, políticas e econômicas.

Através do Seminário pretendemos fortalecer a articulação de uma rede de pesquisadores que já trabalham com o tema e divulgar este campo de pesquisa para estudantes de Pós-Graduação. Esperamos também que, pela participação de engenheiros e gestores do Ministério das Comunicações e da ANATEL, seja estabelecido um canal de comunicação direto com o Conselho Consultivo do Rádio Digital (CCRD) do Ministério das Comunicações, que atualmente conduz os testes e as discussões entorno das opções tecnológicas disponíveis.

A chamada para apresentação de trabalhos já está aberta. O formato é o de short paper, as datas para submissão e as regras completas para formatação de artigos estão disponíveis no site do evento e no seguinte documento PDF.

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