I – OBJETO TÉCNICO ABSTRATO E OBJETO TÉCNICO CONCRETO

Tradução de Du mode d’existence des objets techniques (Gilbert Simondon, Paris: Aubier-Montaigne, 2008 [1958]), por Pedro Peixoto Ferreira (tradução) e Christian Pierre Kasper (revisão). Paginação original e notas dos tradutores (NT) entre colchetes. Notas de rodapé são indicadas no corpo do texto com número entre parênteses e exibidas, em parágrafo separado (logo após o parágrafo no qual elas ocorrem), entre colchetes e em tamanho de fonte menor.

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I. – OBJETO TÉCNICO ABSTRATO E OBJETO TÉCNICO CONCRETO

O objeto técnico obedece a uma gênese, mas é difícil definir a gênese de cada objeto técnico, pois a individualidade dos objetos técnicos se modifica no curso de sua gênese; só dificilmente podemos definir os objetos técnicos por seu pertencimento a uma espécie técnica; as espécies são fáceis de distinguir sumariamente, para o uso prático, enquanto aceitamos apreender o objeto técnico pelo fim prático ao qual ele responde; mas trata-se aqui de uma especificidade ilusória, pois nenhuma estrutura fixa corresponde a um uso definido. Um mesmo resultado pode ser obtido a partir de funcionamentos e de estruturas muito diferentes: um motor a vapor, um motor a gasolina, uma turbina, um motor a mola ou a peso são todos igualmente motores; no entanto, há mais analogia real entre um motor a mola e um arco ou uma besta do que entre esse mesmo motor e um motor a vapor; um relógio de pêndulo possui um motor análogo a um guincho, enquanto que um relógio elétrico é análogo a uma campainha ou a um vibrador. O uso reúne estruturas e funcionamentos heterogêneos sob gêneros e espécies que tiram sua significação da relação entre esse funcionamento e um outro funcionamento, aquele do ser humano na ação. Portanto, isso a que damos um nome único, como, por exemplo, aquele do motor, pode ser múltiplo no instante e pode variar no tempo mudando de individualidade.

Entretanto, ao invés de partir da individualidade do objeto técnico, ou até de sua especificidade, que é muito instável, para tentar [20] definir as leis de sua gênese no quadro dessa individualidade ou dessa especificidade, é preferível inverter o problema: é a partir dos critérios da gênese que poderemos definir a individualidade e a especificidade do objeto técnico: o objeto técnico individual não é tal ou tal coisa, dada hic et nunc, mas aquilo de que há gênese (1). A unidade do objeto técnico, sua individualidade, sua especificidade, são as características de consistência e de convergência de sua gênese. A gênese do objeto técnico faz parte de seu ser. O objeto técnico é aquilo que não é anterior a seu devir, mas presente a cada etapa desse devir; o objeto técnico unitário é unidade de devir. O motor a gasolina não é tal ou tal motor dado no tempo e no espaço, mas o fato de que há uma seqüência, uma continuidade que vai dos primeiros motores até estes que nós conhecemos e que estão ainda em evolução. Por essa razão, como numa linhagem filogenética, um estágio definido de evolução contém em si estruturas e esquemas dinâmicos que estão no princípio de uma evolução das formas. O ser técnico evolui por convergência e por adaptação a si mesmo; ele se unifica interiormente segundo um princípio de ressonância interna. O motor de automóvel atual não é o descendente do motor de 1910 apenas porque o motor de 1910 era aquele que construíam nossos antepassados. Ele tampouco é seu descendente porque ele é mais aperfeiçoado relativamente ao uso; de fato, para tal ou tal uso, um motor de 1910 permanece superior a um motor de 1956. Por exemplo, ele pode suportar um aquecimento considerável sem engripar ou fundir, sendo construído com folgas maiores e sem ligas frágeis como o metal patente [NT: régule]; ele é mais autônomo, possuindo uma ignição por magneto. [21] Motores antigos funcionam sem falhar em navios de pesca após terem sido retirados de um automóvel fora de uso. É por um exame interior dos regimes de causalidade e das formas enquanto adaptadas a esses regimes de causalidade que o motor de automóvel atual é definido como posterior ao motor de 1910. Num motor atual, cada peça importante é tão interligada às outras por trocas recíprocas de energia que ela não pode ser diferente do que ela é. A forma da câmara de explosão, a forma e as dimensões das válvulas, a forma do pistão fazem parte de um mesmo sistema no qual existe uma multidão de causalidades recíprocas. A tal forma desses elementos corresponde uma certa taxa de compressão, que exige ela mesma um grau determinado de antecipação à ignição; a forma do cabeçote, o metal de que ele é feito, em relação com todos os outros elementos do ciclo, produzem uma certa temperatura dos eletrodos da vela de ignição; por sua vez, essa temperatura reage sobre as características da ignição e, portanto, de todo o ciclo. Poderíamos dizer que o motor atual é um motor concreto, enquanto que o motor antigo é um motor abstrato. No motor antigo, cada elemento intervém em um certo momento no ciclo e depois presume-se que não age mais sobre os outros elementos; as peças do motor são como pessoas que trabalhariam cada uma à sua vez mas não se conheceriam umas às outras.

[(1) Segundo modalidades determinadas que distinguem a gênese do objeto técnico daquelas dos outros tipos de objetos: objeto estético, ser vivo. Essas modalidades específicas da gênese devem ser distinguidas de uma especificidade estática que poderíamos estabelecer após a gênese, considerando as características de diversos tipos de objetos; o emprego do método genético tem precisamente por objeto evitar o uso de um pensamento classificatório intervindo após a gênese para repartir a totalidade dos objetos em espécies e em gêneros adequados ao discurso. A evolução passada de um ser técnico permanece essencialmente nesse ser sob forma de tecnicidade. O ser técnico, portador de tecnicidade segundo o procedimento que chamaremos analético, só pode ser o objeto de um conhecimento adequado se este último apreende nele o sentido temporal de sua evolução; esse conhecimento adequado é a cultura técnica, distinta do saber técnico que se limita a apreender, na atualidade, os esquemas isolados do funcionamento. As relações que existem no nível da tecnicidade, entre um objeto técnico e um outro, são tanto horizontais como verticais, por isso um conhecimento que procede por gênero e espécies não convém: nós tentaremos indicar em qual sentido a relação entre os objetos técnicos é transdutiva.]

É, aliás, exatamente assim que explicamos aos alunos o funcionamento dos motores térmicos, cada peça sendo isolada das outras como os traços que a representam no quadro negro, no espaço geométrico partes extra partes. O motor antigo é um conjunto lógico de elementos definidos por sua função completa e única. Cada elemento pode realizar sua função própria da melhor forma possível se ele é como um instrumento perfeitamente finalizado, orientado inteiramente para a realização dessa função. Uma troca permanente de energia entre dois elementos aparece como uma imperfeição se esta troca não faz parte do funcionamento teórico; assim, existe uma forma primitiva do objeto técnico, a forma abstrata, na qual cada unidade teórica e material é tratada como um absoluto, acabada numa perfeição intrínseca que necessita, para seu funcionamento, ser constituída em sistema fechado; a integração ao conjunto oferece, nesse caso, uma série de problemas a resolver, que são ditos técnicos mas que, na verdade, são problemas de compatibilidade entre conjuntos já dados.

[22] Esses conjuntos já dados devem ser mantidos, conservados apesar de suas influências recíprocas. Então aparecem estruturas particulares que podemos nomear, para cada unidade constituinte, estruturas de defesa: o cabeçote do motor térmico a combustão interna se cobre de abas de resfriamento, particularmente desenvolvidas na região das válvulas, submissa a trocas térmicas intensas e a pressões elevadas. Essas abas de resfriamento, nos primeiros motores, são como que acrescentadas do exterior ao cilindro e ao cabeçote teóricos, geometricamente cilíndricos; elas assumem apenas uma função, aquela de resfriamento. Nos motores recentes, essas abas desempenham, além disso, um papel mecânico, se opondo como nervuras a uma deformação do cabeçote sob a pressão dos gases; nessas condições, não podemos mais distinguir a unidade volumétrica (cilindro, cabeçote) e a unidade de dissipação térmica; se suprimíssemos por serração ou lixamento as abas do cabeçote de um motor com resfriamento a ar atual, a unidade volumétrica constituída apenas pelo cabeçote não seria mais viável, mesmo enquanto unidade volumétrica: ela se deformaria sob a pressão dos gases; a unidade volumétrica e mecânica se tornou coextensiva à unidade de dissipação térmica, pois a estrutura do conjunto é bivalente: as abas, com relação aos filetes de ar exterior, constituem uma superfície de resfriamento por trocas térmicas: essas mesmas abas, enquanto fazem parte do cabeçote, limitam a câmara de explosão por um contorno indeformável empregando menos metal do que seria necessário em um monobloco sem nervuras; o desenvolvimento dessa estrutura única não é um compromisso, mas uma concomitância e uma convergência: um cabeçote nervurado pode ser mais fino do que um cabeçote liso com a mesma rigidez; ora, por outro lado, um cabeçote fino autoriza trocas térmicas mais eficazes do que aquelas que poderiam se efetuar através de um cabeçote grosso; a estrutura bivalente aba-nervura melhora o resfriamento não apenas aumentando a superfície de trocas térmicas (o que é o próprio da aba enquanto aba) mas também permitindo um afinamento do cabeçote (o que é o próprio da aba enquanto nervura).

O problema técnico é, portanto, muito mais aquele da convergência das funções em uma unidade estrutural do que aquele de uma busca de compromissos entre exigências em conflito. Se o conflito subsiste entre os dois aspectos da estrutura única no caso observado, é somente enquanto a posição das nervuras correspondendo [23] ao máximo de rigidez não é necessariamente aquele que convém ao melhor resfriamento, facilitando o escoamento dos filetes de ar entre as abas quando o veículo está em movimento. Nesse caso, o construtor pode ser obrigado a conservar um caráter misto incompleto: as abas-nervuras, se elas são dispostas para o melhor resfriamento, deverão ser mais espessas e mais rígidas do que seriam se fossem somente nervuras. Se, ao contrário, elas são dispostas de maneira a resolver perfeitamente o problema de obtenção da rigidez, elas têm uma superfície maior, afim de recuperar por um desenvolvimento da superfície aquilo que o ralentamento dos filetes de ar faz perder na troca térmica; enfim, as abas podem ainda ser, em sua própria estrutura, um compromisso entre as duas formas, o que exige um desenvolvimento maior do que se apenas uma das funções fosse tomada como fim da estrutura. Essa divergência das direções funcionais permanece como um resíduo de abstração no objeto técnico, e é a redução progressiva dessa margem entre as funções das estruturas plurivalentes que define o progresso de um objeto técnico; é essa convergência que especifica o objeto técnico, pois não há, numa época determinada, uma pluralidade infinita de sistemas funcionais possíveis; as espécies técnicas são em número muito mais restrito do que os usos aos quais destinamos os objetos técnicos; as necessidades humanas se diversificam ao infinito, mas as direções de convergência das espécies técnicas são em número finito.

O objeto técnico existe, portanto, como tipo específico obtido ao termo de uma série convergente. Essa série vai do modo abstrato ao modo concreto: ela tende para um estado que faria do ser técnico um sistema inteiramente coerente consigo mesmo, inteiramente unificado.

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